Há alguns anos, em Lisboa, eu estava decidida a seguir os passos de Fernando Pessoa. Ali, com uma câmera ainda analógica na bolsa, comecei a andar: antigo Largo de São Carlos, onde ele nasceu; o Chiado, com o sino da Igreja dos Mártires, o “sino da minha aldeia”; casas onde viveu; lugares onde trabalhou; bares e cafés que freqüentou, numa palavra, a sua Lisboa.
Mas, aos poucos, duas coisas começaram a me distrair de tal maneira que acabei perdendo totalmente a pista do poeta. De repente, não havia mais rastro nenhum dele, sequer a sombra daquele seu chapéu preto. Comecei a observar apenas os nomes das ruas, das praças, dos becos, das vielas, das travessas, das escadinhas, etc. Aqueles nomes soavam-me ora poéticos, ora engraçados, ora curiosos, mas sempre surpreendentes. Com eles, até hoje faço pequenos painéis e bordados.
Pela segunda “distração” posso culpar os azulejos belíssimos. Os mais simples dos prédios de Lisboa estavam cobertos de roupagens muitas vezes labirínticas, e de colorido incrivelmente belo.
Assim, deixei Fernando Pessoa definitivamente em paz e dei início à minha mais nova perseguição. Fotografei aquilo tudo, muito daquilo que vi.
Voltei para São Paulo e comecei a burilar todo o material. Ampliei algumas fotos e, das imagens, começaram a surgir desenhos de jóias. A memória que eu guardava dos azulejos não me deixava, e eles, por sua vez, foram sendo, aos poucos, sobretudo incorporados a broches e pendentes. Disso, foi apenas um passo, simples como virar uma esquina, para, além dos azulejos, vários outros recortes de temas que fotografo serem incorporados a várias peças da joalheria que desenho .
Junto com as imagens fotográficas, uso metais como prata, cobre e um pouquinho de ouro aqui e acolá. Além dos metais, pedras incrivelmente belas também são empregadas em várias peças, ora protegendo a imagem fotográfica, ora entrando como detalhe ou como parte importante da peça.
Em determinadas coleções, não há imagens, há apenas metais, pedras, sementes, fibras, tecidos, bordados, costuras... Cada peça é única, não há duas iguais.
Agora, são os azulejos que me perseguem; e o trabalho com eles foi além das jóias: mais objetos começam a aparecer. Continuo trabalhando.
